Giorgio Paleari, PIME
Para onde vai a missão - Uma leitura transversal das conferências básicas do COMLA 6 - CAM 1
(25 February 2000)


Três foram as conferências pronunciadas nos plenários do Congresso Missionário realizado na cidade de Paraná, Argentina, nos dias 28/09 – 03/10 de 1999. As palestras foram apresentadas, respectivamente, por Dom Luis Augusto Castro, Arcebispo de Tunja (Colômbia), pelo arcebispo de Chicago, Francis E. cardeal George e pelo bispo do Xingu (Brasil), Dom Erwin Krautler. Os temas abordados tiveram enfoques diferentes, mas todos com a pretensão de apontar o contexto novo da missão e os respectivos desafios[1].

Nem sempre a densidade das reflexões, apresentadas nas conferências básicas, chegaram a ser assimiladas pelos grupos temáticos e pelos grupos menores. O grande número de pessoas e o caráter celebrativo do congresso não facilitaram uma recepção e uma confrontação com os conteúdos das falas dos palestrantes. As conclusões finais mais programáticas não retiveram suficientemente os elementos chave dos conteúdos emergentes da missão hoje, como foram analisadas pelos palestrantes.

Em qualquer fala que quer ser abrangente e articulada há palavras que são constantemente repetidas e que revelam as imagens básicas de um discurso, de uma visão de mundo e as decorrentes preocupações. Nosso ponto de partida é que os organizadores do Congresso delegaram a três pessoas-palestrantes a tarefa de fundamentar e aprofundar os eixos norteadores da questão missionária no COMLA 6 e CAM 1. Portanto, os conteúdos destas conferências não são somente parte de um ritual festivo e celebrativo, mas visam caracterizar analiticamente os elementos da questão missionária hoje, a partir do contexto americano. O fato de tomar em consideração estas falas e analisá-las representa muito mais do que descrever o que aconteceu, significa prioritariamente desvendar problemáticas e caminhos futuro da missão. Nossa tarefa consiste em focalizar conteúdos que vão se cruzando entre uma palestra e outra e visualizar os caminhos e os desafios que se abrem.

1. Globalização

Uma das palavras que se revelou constantemente presente no discurso dos oradores foi "globalização". Não representa uma redundância o fato de afirmar que esta realidade se põe como um dos mais contundentes desafios para a missão hoje.

Globalização e seus conteúdos

De maneira específica, a fala do Cardeal de Chicago verteu quase que completamente sobre esta temática. Coube a ele detectar o exato significado do termo e apresentar sua ambivalência nos assim chamados aspectos positivos e negativos[2]. A resposta evangélica frente à globalização se resume, segundo dom George, em duas propostas: a responsabilidade para o bem comum e a defesa da dignidade da pessoa humana. A fala tentou diretamente atacar a centralidade do consumo e do lucro e apontar para uma globalização da solidariedade que elimine a brecha imensa que divide os ricos dos pobres. É aqui que se move a proposta missionária como denúncia da exclusão e anúncio de uma nova ordem. Tudo isso tem como base a proposta evangélica. O cardeal apontou três recursos ou meios que estão atualmente à disposição da Igreja: sua catolicidade (universalidade), a nova evangelização e a celebração do Jubileu.

Globalização e exclusão

Com mais ênfase ainda Dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, indicou que a universalidade da missão se apresenta como alternativa à globalização excludente. A ele coube focalizar, dentro das várias acepções do termo globalização, o aspecto mais crítico e contundente que é "o fenômeno da exclusão social" e que é "a brecha imensa que divide os ricos dos pobres".Como herdeiro do caminho de uma Igreja Latino-americana que, desde Medellín (1968) se debruçou sobre a libertação dos oprimidos, Dom Erwin não hesitou em proclamar que, diante do axioma da globalização "lucro, logo existo", há somente a resposta da missão de Jesus Cristo: "a universalidade da missão cristã é a única alternativa à globalização excludente" em vista de uma genuína cultura globalizada da solidariedade[3]. Somente uma missão, portanto, que parte da pobreza e que faz da Igreja uma comunidade itinerante e peregrina é que pode manifestar o verdadeiro sentido da universalidade cristã em contraposição à exclusão globalizada. Segundo as palavras do bispo do Xingu, a missão é, antes de tudo, um caminho "desarmado na simplicidade e na pobreza" e, também, representa o esforço para "desprogramarmo-nos para desprogramar o mundo". A Igreja missionária - continua Dom Erwin - "aproveita as rachaduras do sistema para plantar o sonho dos pobres e excluídos".

Algumas afirmações de Dom Erwin:

"Hoje, estamos convictos de que a universalidade de nossa missão é a única alternativa à globalização excludente, porque é radicalmente diferente dela. A missão cristã rejeita os mecanismos de exclusão e não flexibiliza os princípios éticos ou a utopia do reino que norteiam sua caminhada. (...) A aproximação missionária não se limita a lançar um olhar curioso sobre os explorados e excluídos, mas assume sua causa, e se aproxima para caminhar junto. (...) A missão muda o mundo da exclusão e transforma a Igreja que em Medellín, Colômbia, se propôs a ser ‘autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo o poder temporal e corajosamente comprometida na libertação do homem todo e de todos os homens".

O Papa João Paulo II, na audiência geral do dia 27 de Outubro de 1999, afirmou explicitamente: "Anunciar Deus Pai aos nossos irmãos que vivem em condições desumanas não é possível sem o compromisso de colaborar em nome de Cristo na construção de uma sociedade mais justa".

Noutras palavras, a Igreja missionária torna-se uma força anti-sistêmica e desprogramadora.

A Igreja, instância crítica da globalização

A terceira palestra de Dom Luis Castro, tinha como eixos a questão da paganização e a respectiva resposta querigmática. Não obstante este particular enfoque, mesmo que não sistematicamente, tratou da globalização em diferentes momentos e com diversos níveis de profundidade. Afirmou, por exemplo, que a catolicidade da Igreja representa uma instância crítica diante da globalização enquanto que "vive a unidade na diversidade", "uma diversidade de línguas, de culturas, de perspectivas (lembrando que os evangelhos são 4 e têm diferentes abordagens) e de tradições religiosas. Em outro momento afirmou que sinais da globalização que representam uma interpelação para a Igreja são as diversas facetas da cultura pós-moderna, como por exemplo, a indiferença religiosa, a neo-religiosidade, o politeísmo, o pseudo-cristianismo, etc. Todos fenômenos que estão concentrados no mundo urbano.

Considerada a abrangência da palestra com um total de 32 itens diferentemente distribuídos, muitos aspectos foram apenas acenados e pouco desenvolvidos.

Em síntese, a questão da globalização, com suas diversas dimensões, emergiu como um dos maiores desafios para a missão nos próximos anos. Não duvidamos que será ao redor desta questão que o caminho missionário deverá trilhar respostas e entendimentos novos. A universalidade evangélica deverá ser melhor explicitada, como também os caminhos específicos da inculturação, do direito à diferença, do diálogo inter-religioso frente à globalização homogeneizadora.

É importante notar que na "Mensagem final ao povo de Deus", sobretudo na primeira parte, focaliza a realidade da globalização como o contexto no qual vai catalisar a atenção missionária nos próximos anos.

2. A espiritualidade missionária

Uma outra expressão chave que catalisou a atenção dos congressistas durante a fala dos oradores foi a "espiritualidade missionária" ou a "experiência de Deus" como elementos norteadores da missão.

As duas expressões não são intercambiáveis, mas coincidem em apontar uma básica experiência que fundamenta a atividade missionária. Durante o congresso, em diferentes momentos, eclodia o termo "espiritualidade" como sendo o "caminho para a santidade", retomando uma famosa expressão de João Paulo II na encíclica "Redemptoris missio." Havia, porém, muitas perguntas sobre o exato conteúdo desta espiritualidade missionária.

De maneiras diferentes e usando termos complementares os três palestrantes discorreram sobre o sentido de uma específica espiritualidade para a missão, fazendo que este termo se tornasse uma outra palavra chave das conferências. Em todas as falas houve uma busca das fontes desta espiritualidade.

O ardor

Dom Erwin dedicou partes importantes de sua conferência à questão do ardor e do entusiasmo que caracteriza a vida do missionário. Segundo o bispo do Xingu, todo este fogo nasce de autêntica experiência de Deus e de uma grande paixão pelo Reino. Assim dizia Dom Erwin: "O ardor não surge por si mesmo. Só uma profunda experiência de Deus e a paixão pela causa do Reino podem suscitá-lo. (...) O que caracteriza o missionário e a missionária é sua profunda paixão pelo Cristo vivo, o Cristo pascal."[4] Este ardor se expande contemporaneamente para comunicar e testemunhar o Evangelho. "Sem limites. Sem restrições. E além fronteiras".É importante entender estes dados a partir de todo o contexto da fala do bispo brasileiro que pretendia historicizar a questão da espiritualidade num compromisso efetivo de uma Igreja peregrina que se compromete a abrir brechas na globalização excludente.

A explosão

Um maior destaque a este tema da espiritualidade foi dado pelo bispo da Colômbia, Dom Castro. Tendo como tema de sua fala a "questão querigmática" destacou o termo "explosão" como o mais significativo para fundamentar a experiência missionária. Esta detonação significa uma experiência radical e profunda de encontro com Jesus Cristo vivo. É uma explosão de ordem pessoal e comunitária que envolve a existência toda. "A missão além fronteiras é propriamente uma conseqüência desta experiência explosiva." Tentando precisar didaticamente o processo da experiência do querigma, Dom Castro destacou que no começo há a Palavra de Deus e a presença do Espírito que acendem o pavio da bomba que irá estourar. Sucessivamente a chama começa a queimar o pavio e vai fazendo o trabalho dentro da pessoa. É como se fosse um movimento de sedução. Num terceiro momento, como ponto de chegada, a explosão lança tudo para fora. É o movimento missionário.

Uma espiritualidade planetária

O cardeal de Chicago, Dom George, tratou da espiritualidade missionária usando uma metáfora. Lembrou que a nave espacial Apolo oito, durante sua viagem no cosmo, divulgou a imagem do planeta Terra como se fosse a de um diamante luminoso harmoniosamente estruturado. Os limites e as divisões não eram visíveis. Tudo representava uma unidade profunda. O olhar desde o espaço mostrava o projeto de unidade e de perfeição, a harmonia e a universalidade. È a partir desta visão que o cardeal de Chicago vislumbrou uma espiritualidade adaptada aos novos tempos: uma espiritualidade planetária. O que significa exatamente isso é a possibilidade de que a dimensão missionária se constitua num horizonte sempre aberto às dimensões do cosmo, superando os limites e as particularidades. No fundo, não pode existir outro fundamento para a espiritualidade missionária senão a universalidade e a superação de qualquer limite.

3. As diferentes dimensões da missão

Todos os palestrantes discorreram sobre alguns desafios particulares da atividade missionária. Os textos se apresentam heterogêneos, mas nem por isso deixaram de focalizar alguns desafios para os próximos anos.

Não é nossa pretensão traçar e delinear todas as propostas presentes, mas caracterizar somente alguns aspectos. Certamente outras pistas que teríamos gostado que fossem mais explícitos, passaram quase na penumbra e despercebidos. Por exemplo, a realidade da inculturação foi quase que desconsiderada, não obstante a maciça presença de congressistas indígenas do Peru, Bolívia, Equador e do Brasil. Como também a realidade afro-americana não teve quase nenhuma ressonância. É interessante notar que na leitura final das conclusões para o público presente, quando o enunciado dizia: "favorecer a reflexão e a práxis que permita às Igrejas Particulares celebrar e viver uma liturgia profundamente inculturada", (prop.12), houve uma aprovação intensa por parte de todos, manifestando um apoio incondicional à proposta. E quando, sucessivamente, foi lida a proposta para uma mais efetiva participação da mulher na vida da Igreja, uma grande salve de palmas acompanhou a leitura (prop.13).

Ao final, algo que foi deixado de lado durante o congresso foi objeto de uma manifestação espontânea e de apoio entusiasta por parte dos congressistas.

"Ad Gentes" ou "Pagãos"

Entre as várias pistas para a questão missionária destacou-se, primeiramente, a dimensão do "ad gentes" [5].

Dom Castro preferiu usar o termo "pagãos" para caracterizar aqueles que se encontram "além das fronteiras da fé em Jesus Cristo".O termo "pagão" e "paganização" continua tendo uma conotação negativa, mas, segundo o arcebispo de Tunja, houve e há muitos santos pagãos no Antigo Testamento e no tempo de hoje. Foram recordados nomes como Jó, Melquisedeque, Gandhi e Rabi’a Al-Adawaya.[6]

Algumas tipologias foram lembradas pelo Bispo da Colômbia. Há os "pagãos pré-modernos", constituídos pelos membros das religiões universais e das religiões locais ou tradicionais. Há os "pagãos modernos", formados por aqueles marcados pela razão instrumental da modernidade, pelo cientificismo e pelo ateísmo. A fé, neste caso, é excluída pela razão. E há também "os pagãos pós-modernos", constituídos por pessoas que estão mais à procura de si mesmos do que de Deus. São características destes grupos as indiferenças religiosas, a centralidade do bem estar pessoal, o politeísmo ocidental, os pseudocristãos. Qual a resposta cristã diante destas múltiplas formas de paganismo?

Existem âmbitos de "paganização" que são geográficos ou culturais. Assim, o continente asiático [7] é aquele que apresenta os maiores desafios pela muito reduzida presença de cristãos, como também a globalização que traz por perto a realidade da paganização e o mundo urbano que concentra em pouco espaço uma realidade indiferente à fé cristã.

Qual a atitude cristã diante deste mundo paganizado ou diante do pluralismo religioso? O Bispo indicou fundamentalmente dois caminhos: o caminho do anúncio e o do diálogo.

O anúncio querigmático e o diálogo inter-religioso

A realidade do pluralismo religioso chama em causa dois horizontes teológicos complementares: o diálogo e o anúncio. Antes de representarem duas realidades contrapostas, mesmo em suas especificidades, eles convergem em alguns pontos. O diálogo não é igual ao anúncio explícito e mantém uma certa distância deste último. No entanto, para o cristão, o diálogo não pode prescindir do anúncio enquanto o missionário não pode negar e por de lado sua identidade cristã. A realidade do diálogo está enraizada no fato de que, desde a criação do mundo, Deus age e continua agindo na história e, como tal, todas as realidades humanas estão sob a luz do "verbo" de Deus. O anúncio, por sua vez, está profundamente ligado ao mandato de Jesus de ir para o mundo todo e pregar o Evangelho a todas as criaturas e, também, está profundamente ligado à necessidade de comunicar o tesouro que foi encontrado. Para o missionário, o ponto de partida é sua fé em Jesus Cristo, mas sabe, também, que o diálogo representa a busca do rosto de Deus que se encontra presente também em diferentes povos e em diferentes culturas e religiões.

Esta dinâmica "diálogo-anúncio" deverá acompanhar constantemente a vida missionária nos próximos anos e deverá ressoar como uma resposta à realidade do "ad gentes" e da "paganização".

América sai de tua terra

É este outro motivo que acompanhou as palestras e o congresso missionário. Desde as manhãs, bem cedo, o grito ressoava no meio dos congressistas e marcava o ritmo do congresso. O hino oficial era cantado a cada momento por todos e as palavras: "Sal de tu tierra", ritmavam as danças e o entusiasmo dos participantes.

Qual o sentido do "sair da própria terra?"

O Cardeal Tomko, neste como noutros congressos, insiste que a América Latina deve abrir suas portas para uma evangelização além fronteira, sobretudo indo para o mundo asiático. Dom Erwin, retomando os anseios da Conferência Episcopal de Puebla afirmou que a América Latina deve dar de sua própria pobreza e a riqueza de sua vivacidade pastoral (DP, 368). Dom Erwin, retomando um poema de Dom Helder, proclamou:

"Missão é partir, caminhar, deixar tudo, sair de si, quebrar a crosta do egoísmo que nos fecha no nosso eu. É parar de dar volta ao redor de nós mesmos como se fôssemos o centro do mundo e da vida. É não se deixar bloquear nos problemas do pequeno mundo a que pertencemos: a humanidade é maior. Missão é sempre partir, mas não devorar quilômetros. È, sobretudo, abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los. E, se para encontrá-los e amá-los é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo".

Dom Castro, falando da situação dos pagãos de hoje, apresentava o continente africano e, mais ainda, o asiático como particularmente desafiador para o cristianismo. Até ventilou a idéia de que a Ásia necessita de um novo tipo e método missionário, não mais ligado ao colonialismo e que respeite as numerosas culturas deste continente.

O fato de sair implica, antes de tudo, uma atitude de abertura constante do próprio pequeno mundo e respirar um ar mais universal. De uma certa maneira é um processo de ruptura com o rotineiro, o usual e o familiar. Sair implica alargar os horizontes, sabendo que mais se abrem as perspectivas mais se tem a possibilidade de resolver os problemas no nosso microcosmo. O grande educador, Paulo Freire, já dizia que se você quer fazer um buraco na terra e quer se adentrar mais profundamente deve necessariamente alargar a superfície. Mais os horizontes se alargam e mais se consegue mergulhar em profundidade na solução dos problemas.

Sair é, também, um deslocar-se fisicamente para outros povos e culturas. Há uma necessidade de desinstalar-se e de se mover. A missão faz do evangelizador um itinerante, um hóspede, um peregrino e um estrangeiro. É necessário recuperar de novo esta dimensão do andar onde Deus quer nos levar. O primeiro movimento é um deslocar-se para o coração de Deus e, a partir disso, um deslocar-se para irmãos, religiões e culturas diferentes.

Uma Igreja peregrina e missionária

Disse Dom Erwin em sua palestra:

"Somente uma Igreja peregrina por natureza fala legitimamente aos pobres e aos outros, aos culturalmente diferentes, da verdade e da vida. (...) O discernimento a partir das origens do caminho ajuda a não confundir a fidelidade ao Senhor com a fixação em modelos historicamente superados, que destroem a identidade peregrina da Igreja. (...) A Igreja missionária vai fundo porque tem raízes profundas, e voa alto porque enxerga e vai longe. É também a Igreja que caminha com as ‘sandálias do pescador".

O caminho histórico da Igreja nem sempre assumiu esta dimensão itinerante. Muitas vezes se fixou em modelos do passado e não soube se perceber como uma comunidade servidora do Reino. Foi muito mais uma igreja identificada com o Reino de Deus. Todas as Igrejas particulares, também, são corresponsáveis pela missão universal.

Dom Castro, dissertando sobre o diálogo inter-religioso, afirmou: "Que não se considere a Igreja como a exclusiva detentora da salvação, mas como o sinal da salvação universal. Não fomos escolhidos para sermos salvos do momento em que Deus quer que todos sejam salvos. Temos sido escolhidos para ser sinal da salvação".

4. Os recursos para a missão

Em vários momentos os vários oradores indicaram os recursos que a Igreja dispõe para a atual evangelização.

Dom George falou explicitamente de três recursos nestes termos:

O primeiro recurso é a catolicidade da Igreja. A palavra "católico" significa "universal". No entanto, esta universalidade é de uma ordem diferente da globalização. A primeira, mesmo tendo uma extensão que abrange o mundo inteiro, respeita as diferenças de cada povo e cultura, enquanto que a segunda, próprio porque homogeneíza, é excludente e impositiva. Um outro sentido da palavra "catolicidade" é "plenitude da verdade." Esta verdade, recebida por Jesus Cristo, é uma proclamação da dignidade da pessoa humana e da solidariedade entre as pessoas e entre cada povo.

O segundo recurso sugerido é a "Nova Evangelização. Como deve ser esta nova evangelização? Deve ser "bíblica, aberta a todos, dialogante e respeitosa da liberdade da consciência, culturalmente adaptada, inovadora no uso dos meios de comunicação social." A nova evangelização pressupõe também dois diálogos, o ecumênico e o inter-religioso.

O terceiro recurso é o Grande Jubileu. O Jubileu traz dentro de si mensagens que são centrais para a missão. O caráter de gratuidade e o cancelamento da dívida com um novo começo para um mundo de paz e justiça representam os núcleos mais profundos deste tempo. Antes de tudo, o amor gratuito de Deus, que ofereceu seu Filho para a salvação do mundo, indica a necessidade de uma gratuidade diante da ganância e dos interesses egoísticos. Em segundo lugar, o cancelamento da dívida representa uma conversão pessoas e social para construir um mundo mais justo e pacífico.

Concluindo, os desafios mais importantes da missão têm nome como: globalização, "ad gentes", e pluralismo religioso; os conteúdos mais importantes são: o anúncio, a espiritualidade missionária, a atitude de sempre "sair" e uma Igreja peregrina e missionária; os recursos que a Igreja dispõe são a universalidade, a nova evangelização e o Jubileu.

Notas

[1] A palestra de Dom Luís Augusto Castro Quiroga teve como título: O paganismo como pergunta, o querigma como resposta. O título da conferência de Dom Francis cardeal George foi: Globalização:desafios à missão da Igreja. O título da fala de Dom Erwin Krautler foi: Igreja Local responsável da missão.

[2] A definição de Dom George: "A globalização se refere a uma expansão e compressão simultânea do tempo e do espaço. Tem conectado pessoas e lugares e tem comprimido as relações. A globalização inclui uma dimensão tecnológica, econômica, política e cultural. Na prática nem todos estão conectados. A grande maioria da humanidade continua desconectada do progresso e vive uma situação de miséria.
A respeito dos elementos positivos e negativos da globalização, a mensagem final do Congresso tem delineado sinteticamente estes aspectos: "Reconhecemos que a globalização facilita o processo de unidade dos povos e um maior acesso à informação.(...) Não obstante, denunciamos com preocupação muitas conseqüências negativas, sobretudo em seus aspectos culturais e econômicos. (...) Escandaliza-nos a brecha crescente em ter os poucos ricos e os muitos pobres."

[3] "No passado fomos acusados de esconder sob o manto da universalidade a pretensão do protagonismo e da hegemonia. Hoje estamos convictos de que a universalidade da nossa missão é a única alternativa. A nossa missão é universal porque não exclui ninguém. Nunca nos adaptaremos aos mecanismos da exclusão. (...) Vivemos no mundo, sem ser do mundo."

[4] "O ardor para a missão rompe toda acomodação e rotina e impulsiona a Igreja a ir ao encontro das pessoas e a injetar-se na realidade que o povo vive, fazendo-se "sal" (Mt. 5,13), "luz" (Mt. 5,14), e "fermento" (Mt. 13,33; Lc. 13, 21-22)."

[5] O termo "ad gentes" aparece no Novo Testamento, em particular nos textos missionários: euntes e docete omnes gentes (Mt. 28,19; Lc. 24,47; Cfr. RM 23). O termo se refere a todos os povos que não são parte do povo eleito. Sempre indica o sentido do universalismo e muitas vezes sublinha o contraste com o povo judeu.
A terminologia de "missão ad gentes" é recente e começa a ser usada no século XIX. As encíclicas deste período, explicando o mandato missionário, classificam a missão ad gentes como uma atividade para com aqueles que ignoram a Cristo. O sentido geográfico é ainda muito presente.
O Concílio Vaticano II tem legitimado esta terminologia. No documento "Ad Gentes" o termo gentes aparece mais de 50 vezes. È verdade que o documento conciliar fundamente melhor a atividade missionária, porém inclui também outras dimensões da missão, como a pastoral, a ecumênica e a missionária específica. (Cfr. Ag 6).
Com a encíclica Redemptoris Missio do Papa João Paulo II (1990), a dimensão geográfica do "ad gentes" é ainda presente, porém esta se estende também às pessoas já evangelizadas nas grandes cidades (nova evangelização). E outro lado, a nova evangelização, mesmo que urgente, não substitui a missão específica "ad gentes".

[6] Nós estamos mais propensos em usar o termo "pluralismo religioso". Este não tem necessariamente um caráter negativo que deve ser sempre explicado e, ao mesmo tempo, sugere como respostas evangelizadoras a realidade do anúncio e do diálogo interreligioso.

[7] Com relação aos dados estatísticos da Ásia (Cfr. Catholic International, 3 (1992), nela vivem 59,8% da população mundial e somente 2,6% são católicos. Em África vive o 12,2% da população mundial e somente o 13, 6% é católico. Na América Latina os católicos são 88,25% da população, mas neste continente a população representa o 8,5% da população mundial.